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Entrevista Sabine Righetti

Entrevista com Sabine Righetti, jornalista, pesquisadora doutora do LabJor (Unicamp) e co-fundadora da Bori, sobre divulgação científica de pesquisas nas ciências humanas e sociais

O Portal IDeA conversou com Sabine Righetti, jornalista, pesquisadora do Labjor (Unicamp) e co-fundadora da Bori, sobre a relação entre as pesquisas em ciências humanas e sociais e o debate público, seus desafios e iniciativas para facilitar este diálogo.

Portal IDeA: O que o debate público ganha ao ser alimentado por resultados de pesquisa, sobretudo no caso das ciências humanas e sociais?

Sabine Righetti: Melhores decisões – públicas ou individuais – são tomadas quando se está bem informado e a melhor informação que existe é o conhecimento científico. Na prática, isso significa um monte de coisas: gastar melhor o dinheiro, tomar medidas mais acertadas e até correr menos riscos. Sempre exemplifico com o caso de um deputado estadual de SP que decidiu fazer uma lei proibindo o uso de celular em posto de gasolina por risco de explosão. Só que não há evidência nenhuma de que postos explodam por causa de celular! Gastou-se tempo em energia na elaboração e aprovação de um projeto de lei e, depois, na confecção de placas distribuídas em postos de todo o estado de SP! Uma pequena revisão no conhecimento na área impediria todo esse processo – e poderia nos ocupar do que realmente importa.

 Quando a gente fala em revisão de conhecimento científico para tomadas de decisão, estamos falando de todas as áreas – biológicas, exatas, humanas, sociais aplicadas. Agora, na pandemia, isso está muito evidente. As ciências sociais aplicadas estão dedicadas aos impactos da Covid na vida das pessoas, na educação, na economia e tem produzido muito conhecimento com informações úteis para políticas públicas. No blog da [](https://abori.com.br/blog/pesquisa-com-profissionais-de-saude-na-pandemia-da-base-a-denuncia-na-oea-contra-governo/) Bori falamos sobre a importância dessa produção. Olhando para a produção de humanas e sociais é possível gerenciar a pandemia e reduzir seus danos de maneira mais acertada.

Portal IDeA: Quais as diferenças na construção das mensagens entre o discurso dos pesquisadores - especialmente das ciências humanas e sociais - e a forma como o debate se constrói no debate público?

Sabine Righetti: O debate público é muito pautado pelo jornalismo e, no jornalismo, costumamos dizer que a notícia é “o dono que morde o cachorro”. Isso porque o cachorro morder o dono é esperado, mas o contrário – o que sai do esperado, o que dá errado – , sim, é notícia. Trazendo isso para a nossa discussão e, especificamente, para educação: a mensagem sobre educação no debate público é fortemente pautada pelo “o dono que morde o cachorro”: a escola fechada, a nota baixa no IDEB, o mau desempenho no PISA em comparação a outros países etc. Discutimos problemas, mas não chegamos em nenhuma solução. Há muitas análises, propostas e soluções sobretudo nas mensagens das ciências sociais e humanas – só que elas não chegam ao debate público.

Portal IDeA: Quais os grandes desafios você vê para a pesquisa em educação chegar no debate público?

Sabine Righetti: A forma mais eficiente de se levar pesquisa para o debate público é a imprensa. A questão é que a imprensa de educação no país é muito pautada por questões factuais – que são importantes – e pouco pautada pela produção do conhecimento. Jornalistas de educação se dedicam muito à cobertura de indicadores educacionais, grandes eventos como Enem, agenda política de secretários e do Ministro e questões do dia a dia das escolas (como denúncias), mas dificilmente se debruçam em estudos que tratam de educação – e raramente trazem um pesquisador de educação para comentar algo factual. Esse distanciamento precisa ser enfrentado por meio de treinamentos/imersões/sensibilizações para jornalistas de educação e para pesquisadores de educação também. É preciso construir uma ponte entre esses dois mundos, apresentar e explicar um mundo ao outro. Isso é um pouco do que tentamos fazer na Agência Bori.

Portal IDeA: As iniciativas de divulgação científica ganharam mais visibilidade nas redes sociais. Contudo, o espaço parece ser majoritariamente ocupado pelas ciências exatas e biológicas. Como as ciências humanas e sociais poderiam se encaixar nesse cenário?

Sabine Righetti: Alguns cientistas têm feito um esforço pessoal para levar informação para redes sociais – e isso cresceu muito na pandemia. É o caso do Átila Iamarino, Natália Pasternak, Hugo Fernandes e do Pirulla – todos formados em ciências biológicas! Tenho uma hipótese de que alguns cientistas dessa geração foram para a academia justamente influenciados por divulgadores de ciência como o astrofísico Carl Sagan e, talvez por isso, integram a divulgação na sua própria prática científica. Mas, talvez, a trajetória de pesquisadores de humanas e sociais seja diferente. E talvez até falar sobre conhecimento científico em humanas nas redes sociais possa “pegar mal” entre colegas/pares da academia. Estamos estudando essa hipótese em uma pesquisa atualmente em andamento. O que costumo dizer é que não podemos esperar que pesquisadores – especialmente de humanas – decidam fazer divulgação por conta própria, mas precisamos criar mecanismos institucionais para que isso aconteça, como treinamentos e até valorização institucional de pesquisadores que também fazem divulgação!

Portal IDeA: Além da Bori, quais iniciativas de divulgação científica no Brasil e no Exterior você destacaria pela qualidade?

Sabine Righetti: A Bori é inspirada no EurekAlert sistema da Sociedade Americana para o Progresso da Ciência (AAAS, em inglês), que desde a década de 80 antecipa a jornalistas resultados científicos de periódicos como a Science – além de explicar esses resultados em várias línguas e de passar, aos jornalistas, o contato direto dos pesquisadores porta-vozes dos trabalhos. O resultado é impressionante: toda sexta-feira há trabalhos na Science em jornais do mundo todo! A gente faz algo semelhante na Bori com pesquisas do Brasil.

No Brasil, temos iniciativas muito interessantes também, como a Agência Fapesp, que começou em 2003 a publicar diariamente vários resultados de pesquisa de excelência financiadas pela Fapesp. Os textos são excelentes e há um efeito cascata, já que parte do material acaba reproduzido ou pauta veículos de todo o país. Eu diria que a Agência Fapesp foi decisiva para mostrar o incrível montante de pesquisa que temos por aqui.

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