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A relação entre rendimento escolar e classe social nos EUA

A suspensão das aulas por causa da pandemia de Covid-19, embora necessária, deverá aumentar as desigualdades educacionais associadas ao nível socioeconômico das famílias. Essa associação é bem conhecida e foi demonstrada nos anos de 1960 por trabalhos publicados nos EUA, no Reino Unido e na França. Desde então, invariavelmente, essa associação é encontrada nos mais diversos países e contextos, variando apenas o modo como se dá em longo do tempo e em diferentes locais. Também nos anos 1960, na França, demógrafos e sociólogos demonstraram que as desigualdades educacionais estavam associadas menos à renda das famílias e mais às suas desigualdades culturais e educacionais.

Em diálogo com essa literatura, Sean Reardon, professor da Universidade de Stanford, analisou dados de um período de quase 60 anos (1943-2001) da história norte-americana, investigando as mudanças nos padrões da associação entre, de um lado, a renda e a escolaridade das famílias e, de outro, os rendimentos escolares de seus filhos. Este é um dos trabalhos apresentados na pesquisa “Educação, Pobreza e desigualdades”, disponível no Portal IDeA.

Reardon se concentra no período posterior à década de 1970, quando houve nos EUA o expressivo aumento na desigualdade entre a renda dos mais ricos e a dos mais pobres. Ao analisar os dados de desempenho acadêmico de grupos de estudantes definidos pela renda familiar e sua raça, o autor mostra que, se por um lado, houve diminuição da diferença nos desempenhos acadêmicos de crianças negras em relação às brancas, por outro, aumentou a diferença de resultados acadêmicos entre os estudantes mais pobres e mais ricos - era de 30% a 40% maior entre as crianças nascidas em 2001 do que entre as nascidas em 1976. Outro resultado importante da pesquisa é que, desde os anos 1970, houve um aumento na associação dos resultados escolares à renda familiar, controlado o grau de escolaridade das famílias; segundo o pesquisador, um dólar a mais na renda parece comprar mais desempenho escolar nos anos 2000 do que há algumas décadas.

Por que, desde os anos 1970, houve o aumento da desigualdade educacional entre ricos e pobres e por que aumentou a associação entre renda familiar e desempenho, controlada a escolaridade dos pais? O autor levanta três explicações. A primeira é que houve, no período, um aumento maior do investimento de tempo e dinheiro feito pelas famílias mais ricas no desenvolvimento acadêmico dos seus filhos. A segunda explicação diz respeito a características do contexto familiar. As famílias mais ricas, de modo geral, têm pais mais escolarizados e que costumam ter práticas voltadas à escolarização dos filhos que são mais rentáveis. O autor verificou que essas famílias modificaram e intensificaram essas práticas visando os resultados escolares de seus filhos, o que levou ao aumento do desempenho escolar de seus filhos. Por sua vez, essa mudança nas práticas familiares visando a escolarização não se verificou, com a mesma intensidade, entre as famílias mais pobres. A terceira explicação, enfatiza o aumento da segregação residencial por renda nos Estados Unidos. Como o orçamento escolar norte-americano é, em boa medida, baseado em impostos locais sobre patrimônio imobiliário, os distritos escolares mais ricos, onde estão os estudantes das famílias mais ricas e escolarizadas, são também aqueles que contam com as escolas com maiores e melhores recursos.

Apesar de lidar com o contexto norte-americano, a pesquisa de Reardon permite a construção de indagações sobre como, no contexto brasileiro, tem se dado a relação entre desempenho escolar e renda familiar, antes e depois da pandemia de Covid-19.